Pais e filhos


A importância do apego

Em reuniões com pais e professores já ouvi muito que os anos iniciais são os mais importantes no desenvolvimento psicológico de uma pessoa. De fato são! Vários estudos mostram, por exemplo, que muitos padrões de comportamento de um adulto foram moldados por suas experiências até os 6 anos de idade. Destas experiências talvez a mais marcante e decisiva seja a qualidade do apego que uma pessoa desenvolveu com seus pais, ou cuidadores. 


O que é apego?

De uma forma sucinta: todo bebê tem alguns comportamentos programados a fim de buscar sua sobrevivência. Entre eles, estender os braços, chorar, rir. Os adultos próximos (pais ou responsáveis por cuidar da criança) vão responder a estas iniciativas. O bebê vai interpretar estas respostas e seu comportamento tentará se adequar a elas. Com o tempo, a criança vai interpretando estas interações com seus cuidadores e criando modelos internos de trabalho. Um modelo de trabalho interno é um conjunto de expectativas e crenças sobre si mesmo, os outros e a relação entre o eu e o outro. Ou seja, é um modelo que a criança usa para ter uma imagem de como ela é, de como as pessoas são e do que esperar da relação entre ela e as pessoas.

Assim, a maneira como a criança se vê depende de como ela foi tratada pelas pessoas responsáveis por tomarem conta dela. Por exemplo, se esta pessoa responde a seus chamados, dá alimento quando necessário, pega no colo para acalmar, ri de volta, realiza brincadeiras, a criança se sente uma pessoa amada, desejada, aceita no ambiente em que vive. Ao mesmo tempo, ela começa a criar um modelo no qual as pessoas são confiáveis e, portanto, que pode depender delas. Ela tem uma imagem positiva do seu cuidador (a mãe, o pai, ou outra pessoa) e passa a criar uma imagem positiva de outras pessoas e de como se relacionar com elas.


Por outro lado, se o cuidador é insensível, abusivo, negligente, a criança cria um modelo na qual ela é indesejada, não amada, não integrada ao seu ambiente. As pessoas para ela não são confiáveis, são perigosas, e não pode depender delas. Ou seja, ela tem uma imagem negativa do seu cuidador e, por extensão, das demais pessoas e de como se relacionar com elas.



“O apego é a conexão profunda e duradoura estabelecida entre a criança e o cuidador nos primeiros anos de vida. Ele influencia profundamente cada componente da condição humana: mente, corpo, emoções, relações e valores”


Apego é esta relação emocional criada entre a criança e seu cuidador. Bem, há uma série de nuances neste assunto, obviamente. Mas dá para perceber que a qualidade deste apego afeta o desenvolvimento emocional da criança até a fase adulta. Sem a pretensão de criarmos uma publicação científica, vamos falar mais sobre um dos tipo de apego listados pelos pesquisadores: o apego seguro. Simplesmente por ser de tipo positivo, com melhor qualidade e boas consequências  duradouras. Os outros tipo de apego (resistente, ambivalente e desorganizado/desorientado) podem ser vistos em outro oportunidade. Por ora, vamos ao apego seguro!

O apego seguro

Uma criança pequena (1 ou 2 anos) com apego seguro gosta de interagir com seu cuidador: sua proximidade é prazerosa para a criança. Ela vê neste adulto um porto seguro, a partir do qual ela explora o ambiente, o mundo a seu redor. Quando se sente ameaçada ou com medo, ou apenas para reforçar sua segurança, ela retorna prontamente a esta base segura. Ela aprecia seu contato, suas brincadeiras, seu colo, sua presença. Ela não gosta quando este adulto se afasta dela. Ou seja, há um vínculo afetivo positivo muito forte entre ambos. A criança sente-se segura e amada por este adulto.

Como o cuidador propicia à criança o estabelecimento de um apego seguro? 

A revisão de vários estudos mostrou que as seguintes características das mães, seguidas de alguns exemplos, proporcionam a criação de apego seguro entre elas e seus filhos. É importante lembrar que a qualidade do apego é avaliada do ponto de vista da criança, pela criança, não do adulto. Ou seja, apenas boas intenções não resolvem: não é como o adulto interpreta uma ação, mas como a criança interpreta.

Característica da mãe/cuidador
Exemplo
Sensibilidade
Responde rápida e a apropriadamente aos sinais do bebê
Atitude positiva
Expressa afeto positivo e afeição para com o bebê
Sincronia
Estrutura interações suaves e recíprocas com o bebê
Mutualidade
Estrutura interações nas quais mãe e filho respondem em conjunto
Apoio
Mantém a proximidade com o bebê a provê apoio emocional às suas atividades
Estimulação
Frequentemente interage com o bebê
Fonte: adaptado de Shaffer (2005)

Crianças de apego seguro têm pais que brincam mais, que respondem com rapidez às necessidades de seus filhos e respondem mais às suas iniciativas. Estes pais proporcionam vários tipos de estímulo à criança, dão ênfase aos aspectos positivos dos empreendimentos dos seus filhos. Ou seja, quando a criança realiza uma tarefa e mostra aos pais, estes enfatizam o que há de belo, de bem feito, no trabalho, pontuando suas características. Não se preocupam com críticas negativas, nem com a criação de expectativas na criança ao dizer "vou sentir orgulho de você quando fizer isso de tal forma", etc. 





Disciplina em crianças envolve a relação entre elas e as pessoas. Esta relação acontece através da comunicação, seja verbal ou corporal. Para que tenhamos uma ideia de como saber se comunicar com uma criança é fundamental para que ela tenha um desenvolvimento psicossocial saudável, vejamos algumas definições rápidas sobre dois aspectos fundamentais da psique humana: autoconceito e autoestima.

Autoconceito é a forma como a pessoa percebe a si mesma: quais atributos e características ela dá a si mesma. O autoconceito é como uma imagem projetada por um espelho social, ou seja, a maioria do nosso autoconceito é construído com base nas reações das pessoas ao nosso redor aos nossos atos e presença. Ele é construído sobre os nossos contatos e experiências com outras pessoas.

Autoestima é como uma pessoa dá valores para esses atributos e características. Esta é apenas a percepção que a pessoa tem destes atributos e características, o que não está necessariamente de acordo com a realidade. Por exemplo, uma pessoa poderia dizer ser mais inteligente do que outra em uma classe, mas um teste de QI poderia não corroborar essa alegação. Assim, a autoestima é como a pessoa percebe e que valores dá a alguns traços de sua personalidade. Esta percepção e esta valoração podem mudar com o tempo e ser influenciadas por uma série de circunstâncias ambientais, como ir mal em um teste, ou perder o emprego, ou ganhar um campeonato.

Do primeiro aspecto já temos uma pista bastante valiosa sobre como a comunicação com nossos filhos afeta diretamente na formação do autoconceito: as nossas reações ajudam a criar o que se chama de self espelhado. Nosso filho faz algo e temos uma reação, em geral acompanhada de verbalização. Esta reação e as palavras usadas, e como são usadas, vão sendo aos poucos interpretadas pelas crianças e usadas para definir seu autoconceito. 


Exemplo: ouvir constantemente “Você é teimoso!” leva a criança a aceitar isto como uma característica verdadeira de sua personalidade (profecia autorealizada), comportando-se, daí para a frente, a partir desta visão: ser uma criança teimosa. Se, ao contrário, os pais procuram entender, em primeiro lugar, por que a criança comportou-se de uma certa forma (demonstração de empatia), ouvir a racionalização da criança para explicar seu comportamento e a partir daí racionalizar junto com ela sobre causas e efeitos, e melhores escolhas, passa uma mensagem bem diferente para criança. “Bem, minha opinião conta. Sou respeitada e ouvida.” Ou seja, ao invés de acrescentar ao seu autoconceito o ser uma criança teimosa, acrescenta o ser uma criança respeitada. No futuro, quando adulta, vai exigir naturalmente respeitos dos outros por si. E, sem bem orientada, a demonstrar este mesmo respeito.

Temos uma grande tendência a desaprovar a criança, não seus atos. Isto pode advir da criação que tivemos, de herança cultural, da pressa do dia-a-dia, da expectativa de resultados imediatos, da descarga de frustrações, etc. Ao fazermos isso, no entanto, estamos afetando não apenas o autoconceito da criança, mas também sua autoestima. Quando alguém generaliza para você: “Fulano, você não consegue fazer um relatório decente nunca! Assim não dá, vou ter de tirar alguns de seus benefícios para compensar todo retrabalho.” Qual sua reação? Raiva, medo, ódio, frustração, baixa estima. Se seu empregador dissesse “Fulano, tenho visto que a conclusão dos relatórios pelos quais você é responsável deixa de citar algumas características do cliente. Por exemplo, neste caso X. Há alguma razão para isso que não tenhamos percebido? Como podemos chegar a um consenso?” Imagino que sua reação seja bem diferente! 

Por que, no entanto, tratamos nossos filhos como da primeira forma? Ao invés de dizermos “Pedrinho, chutar o brinquedo deste jeito vai quebrá-lo. Por que você está fazendo isso?” (com um tom de voz demonstrando preocupação autêntica), dizemos “Pedrinho, pare menino. Você só chuta seus brinquedos! Não vou mais dar nenhum pra você” (com tom de voz alto, irritado, ameaçador). Já está provado que a mudança de comportamento com efeito a longo prazo é aquela que foi internalizada pela criança, não imposta pelo adulto. Em termos práticos, é desaprovar o comportamento da criança, nunca a criança. Assim, a mensagem que passamos é mais próxima de “este comportamento não é legal por tal e tal motivo” do que “você é uma criança que só faz coisas erradas.” Sutil, não?

Portanto, o que sempre temos de ter em mente é que nossos atos e palavras devem servir para ajudar a criança a criar um autoconceito positivo e uma boa autoestima. Seria legal refletirmos sobre várias situações que acontecem conosco e nossos filhos e analisar nosso comportamento. Será que estou promovendo de forma construtiva seu autoconceito? Estou minando sua autoestima? O que exatamente eu disse ou fiz que pode ser melhorado? Lembre-se: o que fica é a relação a longo prazo com seu filho, não a sua mudança de comportamento no aqui e agora, de imediato. Veremos em outros posts que mudar o comportamento a curto prazo não é tão difícil de conseguir. Mas a que preço?


3 comentários:

  1. bem legal;gostei muito, e serviu bastante para fazer meu trabalho de escola...

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    1. Que legal, Ayda, o texto ser útil para você. Cadastre-se como seguidora do blog para receber novidades!

      Poderia falar sobre este trabalho de escola? ;)

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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