23 de julho de 2013

Percepções - parte 2 - produtos de quatro elementos

Um bom ouvinte numa tenta forçar o processo de comunicação, mas se concentra em prestar atenção ao que realmente está acontecendo. As pessoas comunicam muito através do silêncio, das atitudes, das escolhas de onde se colocar, até mesmo das posturas corporais. As crianças tendem a se calar quando se sentem ameaçadas em fazer algo que elas não querem fazer. (Glenn)

Inúmeros pesquisadores já mostraram a importância fundamental da experiência na aprendizagem. Através dela, nosso cérebro estabelece novas conexões, fortalece outras, faz relacionamentos de causa e efeito, etc. Aprender pela experiência é especialmente importante para a criança nos seus primeiros anos de vida. É a fase que Piaget chamou de concreta: a base sobre a qual a criança pode criar futuras abstrações.

Mas como já dissemos na postagem anterior sobre percepções, o mais significativo não é a experiência em si, mas a percepção que cada um tem dela. Podemos contribuir significativamente para que nosso filhos tomem consciência cada vez mais de suas percepções e aprendam através das interpretações que dão a elas. Isso passa pela comunicação! 


Segundo aspecto das percepções: são produtos de quatro elementos

Na primeira postagem sobre percepções, trabalhamos o primeiro de cinco aspectos (elas são fundamentais para as atitudes, motivações e comportamentos de uma criança). Nesta postagem, trabalharemos o segundo aspecto: as percepções são produtos de quatro elementos. 

Todo aprendizado passa pelo filtro de nossas percepções. Para que este aprendizado seja efetivo, para que possa ter um efeito duradouro, ele passa por quatro elementos, ou estágios:

  1. a experiência em si, que pode vir de várias formas;
  2. o que identificamos como significativo na experiência;
  3. nossa análise, baseada na estrutura cognitiva específica de cada indivíduo, de por que é significativo, e
  4. nossa generalização, resultado de nossas percepções pessoais sobre qual o valor futuro que a experiência tem para nós.
Dito de outra maneira, estas etapas respondem às perguntas: o que, por que, como? Na prática, é estar atento ao que acontece aos nossos filhos. É desenvolver o discernimento de quais experiências podem ter um significado especial para eles e explorar junto com eles as interpretações que dão a estas experiências.

Fazendo um paralelo com cada uma destas etapas, podemos propor um pequeno guia prático:
  1. ficar atento às experiências, positivas e negativas, da criança;
  2. ajudar  a criança a identificar os principais pontos da experiência: "o que aconteceu; o que você viu; o que você está sentindo; para você, o que aconteceu de mais importante?";
  3. ajudar a criança a analisar a experiência: por que você acha que isso aconteceu; por que foi importante para você?". Algumas crianças podem se sentir intimidadas com perguntas que começam com "por que?". Podem responder na defensiva, "eu não sei!". Uma abordagem alternativa seria: "o que fez aquilo ser importante para você; o que você estava tentanto fazer; o que você achou que ia acontecer; o que deixou você triste, com raiva, alegre?", e
  4. ajudar a criança a identificar um princípio que pode ser aplicado a outras situações: "se você quiser que na próxima vez seja diferente, o que você faria; se você quiser que a mesma situação aconteça, o que deveria fazer igual?".
Um ponto importante a ser dito aqui, e que será trabalhado com mais detalhes em futuras postagens, é a absoluta necessidade de respeitarmos e validarmos as percepções da criança. Não é produtivo esperar que ela tenha as mesmas percepções e interpretações que um adulto teria. Que nós teríamos. Uma das maiores barreiras no relacionamento com qualquer pessoa é presumir: "é claro que ela...; eu acho que...; espero que..." Não cair nesta armadilha é crucial neste processo de trabalhar as percepções de uma criança. E para evitar o mau uso do processo que acabamos de expor.

Mau uso e mudança de paradigmas

A intenção deste processo é ajudar a criança a ficar atenta às suas próprias percepções e a dar suas interpretações para as experiências que vivencia. É ajudar no desenvolvimento da individualidade. Não é impor nossas próprias interpretações e vontades: isso é manipulação!

Muitos de nós foram criados para aceitar e repetir os valores dos adultos próximos a nós. Poucos tiveram suas impressões e interpretações respeitadas. Por isso é difícil para muitos, incluindo a mim, aceitar de fato que uma criança tenha percepções muito particulares sobre suas experiências, sem que tenha estas impressões julgadas ou ridicularizadas. Em geral, de forma inconsciente, por adultos que replicam o condicionamento de toda uma vida.


Para estas pessoas, é uma mudança de paradigmas muito forte. Mas pessoalmente estou decidido a buscar esta mudança. Vale a pena! É um processo de aprendizado para todos: pais e filhos.

Na próxima postagem vamos trabalhar os outros aspectos das percepções: são cumulativas, são únicas e precisam de reforço e desafio para mudarem. Até lá!

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