Mídias e educação


Conversar sobre televisão, e hoje em dia sobre computadores, não é tarefa fácil. O poder de atração destas mídias é muito forte: não há como negar a sedução dos programas, do visual, do áudio, das tecnologias (HD, 3D, Smart...) e por aí afora. Sem dúvida é um componente da cultura ocidental, quiçá mundial. E como tal exerce um apelo e uma influência muito grandes. No entanto, por ser um componente cultural, o seu uso e constituição são ditados pela ação humana. Ou seja, mais do que expectadores passivos, conformados com o “assim são as coisas, que posso fazer?”, podemos nos tornar agentes ativos, fazendo nossas escolhas e exigindo mudanças.

Por que digo isso? Porque este assunto deve ocupar um bom espaço neste blog, não apenas pela sua extensão, mas pelas consequências e possibilidades que traz. Para não ficar no “achismo”, vamos começar pelos dados: o que estudos (muitos de longa data e longitudinais, ou seja, realizados ao longo de muitos anos) mostram. Estas pesquisas têm sido feitas em vários domínios do desenvolvimento humano: violência, desenvolvimento do cérebro, comportamento, propaganda (marketing), educação, saúde, etc. Começaremos pela violência na televisão. Primeiro os dados, depois os comentários.

A violência na TV influencia nossas crianças? 

Os dados

Centenas de estudos sobre este tema têm sido feitos desde o surgimento da televisão. E virtualmente todos eles respondem à pergunta acima: sim, a violência mostrada na televisão influencia nossas crianças! A Universidade de Michigan e a Kaiser Family Foundation fizeram um resumo dos resultados destes estudos, mostrados abaixo.

  1. A criança que assiste em média a 2 horas de desenhos animados por dia pode ver quase 10.000 incidentes violentos a cada ano, dos quais os pesquisadores estimam que pelo menos 500 representam um elevado risco para aprenderem e imitarem agressão e tornarem-se insensíveis à violência.
  2. Dois terços de todos os programas contêm violência.
  3. Menos de 5% desses programas apresentavam um tema anti-violência ou uma mensagem pró-social com ênfase nas alternativas à violência ou as conseqüências da mesma.
  4. Programas para crianças em geral mostram mais violência do que programas para adultos.
  5. Muitos dos atos violentos ficam impunes na TV e são frequentemente acompanhados de humor. As consequências do sofrimento e perdas humanas raramente são retratados.
  6. Muitos programas “glamourizam” a violência. A TV muitas vezes promove atos violentos como uma forma divertida e eficaz para obter o que se deseja, sem conseqüências.
  7. Mesmo em filmes e animações classificados como livres para todas as idades, a violência é comum, muitas vezes como um caminho usado pelos “bons” personagens para resolver os seus problemas. Em cada longa-metragem produzida entre 1937 e 1999 nos EUA (assistidos no mundo inteiro), a violência contida e a quantidade de violência com a intenção de ferir aumentou ao longo dos anos.
  8. Mesmo "mocinhos" baterem em "bandidos" dá uma mensagem de que a violência é normal e usada para o bem. Muitas crianças vão tentar ser como mocinhos e heróis em suas brincadeiras.
  9. As crianças imitam a violência que vêm na TV. Crianças menores de oito anos de idade não podem dizer a diferença entre realidade e fantasia, mesmo que isso seja dito a elas, tornando-as mais vulneráveis ​​a aprender e adotar como a realidade a violência que vêm na TV.
  10. A exposição repetida à violência na TV torna as crianças menos sensíveis em relação aos seus efeitos sobre as vítimas e o sofrimento humano que a violência provoca.
  11. Assistir à violência na TV reduz inibições e leva a um comportamento mais agressivo.

A exposição à violência na TV pode ter efeitos a longo prazo:

  1. Em um estudo de 15 anos feito pela Universidade de Michigan, os pesquisadores descobriram que a ligação entre assistir à violência na TV durante a infância e comportamento agressivo e violento persiste na idade adulta.
  2. Em um estudo de 17 anos descobriram que meninos adolescentes que cresceram assistindo mais TV todo dia são mais propensos a cometer atos de violência do que aqueles que assistiram menos.
  3. O simples fato da TV ficar ligada em casa está relacionado ao comportamento mais agressivo em crianças de 3 anos de idade. Detalhe: independentemente do tipo de programação, independentemente de a criança estar realmente assistindo a TV ou não.

Três maiores riscos potenciais

Em geral, os pesquisadores têm se preocupado com três efeitos importantes que potencialmente podem advir da exposição à violência na TV: aumento do comportamento agressivo ou antissocial, dessensibilização em relação à violência e aumento do medo de se tornar vítima da violência.

O comportamento agressivo relacionado à violência mostrada na TV tem sido mostrado através de vários estudos. Em alguns deles, realizados na década de 60 (veja como é antiga a preocupação com o tema), crianças que foram expostas a um clipe de TV de um ator batendo em uma boneca inflável eram mais propensas a imitar a ação em brincadeiras  do que as crianças que não viram o clipe, especialmente se as ações agressivas no clipe foram recompensadas. Em um estudo, pesquisadores passaram para um grupo de crianças episódios do Batman e do Homem-Aranha e para outro grupo o programa Bairro do Mister Rogers (educativo) durante várias semanas. Em seguida, observaram comportamento das crianças duas semanas depois. As crianças que viram desenhos animados violentos eram mais propensas a interagir de forma agressiva com os seus pares, enquanto as crianças que assistiram Bairro do Mister Rogers apresentaram um comportamento mais cooperativo e disposto a compartilhar brinquedos.

Em outro estudo, os pesquisadores expuseram crianças a um episódio de Power Rangers e depois observaram sua agressão verbal e física na sala de aula. Em comparação com crianças que não tinham visto o episódio, estas crianças cometeram sete vezes mais atos agressivos do que aquelas, tais como bater, chutar, empurrar e insultar um colega. Um estudo recente demonstrou uma relação entre o assédio moral das crianças (bullying) e sua exposição à violência na mídia. Alunos do 3º ao 4º ano do fundamental que foram identificadas pelos seus pares como sendo os que espalhavam boatos, excluíam e insultavam os colegas e se comportavam de forma que outros poderiam se ferir, eram mais propensos a ver a violência na TV que as crianças não agressivas.

A hipótese da dessensibilização foi levantada após estudo realizado com crianças entre 8 e 10 anos de idade. Um grupo de crianças assistia a um programa violento, enquanto o outro assistia a um programa esportivo interessante e não violento. Depois, foi pedido a cada uma que tomasse conta de duas crianças pequenas que estariam em uma sala ao lado. Mas elas só poderiam ser vistas através de um monitor. Elas deveriam chamar o pesquisador caso qualquer coisa saísse errado com as crianças. Na verdade, não havia crianças na sala ao lado: o que elas assistiam era um gravação. Nela, as crianças começavam e discutir e a brigar, gradualmente, até que o monitor ficasse sem imagem. As crianças que tinham assistido ao programa violento demoraram muito mais para intervir do que seus colegas que tinham visto ao programa esportivo. Ou seja, foram menos sensibilizadas pela briga e ficaram inclinadas a tolerá-la. É o caso da banalização da violência: é vista tantas vezes e em situações tão diferentes que não causa mais impacto, ao contrário. Isso não é preocupante? Afinal, que sociedade queremos para nosso filhos?


Quanto ao medo de se tornarem vítimas da violência, as crianças podem começar a ver o mundo como um lugar assustador em geral, quando passam a assumir a violência mostrada na TV como verdadeira no mundo real. Os sintomas por estarem com medo ou chateadas com relação às histórias de TV podem incluir pesadelos, sentimentos de ansiedade, medo de estar sozinho, afastarem-se dos colegas e a faltarem nas aulas. Receios causados ​​pela TV podem causar problemas de sono em crianças. Personagens assustadoras como monstros grotescos podem assustar especialmente as crianças com idade entre 2 e 7 anos. Dizer-lhes que as imagens não são reais não ajuda, porque as crianças menores de oito anos de idade não podem sempre dizer a diferença entre fantasia e realidade. Crianças de 8-12 anos que vêm a violência muitas vezes têm medo de que elas podem ser uma vítima de violência ou desastre natural. Fatos violentos mostrados nos telejornais podem causar em crianças na idade escolar medo e preocupação. Quando a ameaça é mostrada como a notícia cria temores mais fortes do que quando ele é mostrado como ficção.


Uau! Parece assustador, não? E é! Enquanto todos nós pensamos um pouco sobre os dados apresentados, podemos pensar também nos nossos valores. O que queremos, não só para nossos filhos, mas também para a sociedade em que vivemos? Se para mim a violência é um fato consumado da vida em sociedade e nada posso fazer para alterar isso, eu tenho uma atitude. Se eu sou uma pessoa para quem a violência é um fato, mas não aceito este fato, eu tenho outra atitude. É uma questão de escolha. No próximo post, vamos discutir os efeitos da exposição à TV nas crianças pequenas. No final, vamos buscar alternativas para tudo isso. Até lá!


Dicas de como gerenciar o uso da TV em família

1 - Como podemos limitar a quantidade de tempo assistindo TV?
  • Faça regras muito específicas sobre quando as crianças podem e não podem ver televisão. Por exemplo, não permitem TV durante as refeições, lição de casa, ou quando os pais não estão por perto.
  • A Associação Americana de Pediatria (AAP) recomenda que os pais limitem em uma ou duas horas por dia o tempo que seus filhos possam ver TV, no máximo.
  • Uma alternativa é limitar a TV a uma hora em dias de semana e de duas a três horas por dia nos fins de semana.
  • Você pode permitir um tempo maior para programas educacionais especiais.
  • A melhor regra, no entanto, é nada de TV durante a semana, e fim de semana com TV limitada. Isso garante que as crianças não estejam correndo para terminar a sua lição de casa para que eles possam assistir a um programa favorito. Também libera mais tempo para a interação na família durante os dias da semana, mais ocupados que os de fim de semana. Por exemplo, em vez de colocar as crianças na frente da TV enquanto você prepara o jantar, elas podem ajudá-los na tarefa. Até mesmo crianças podem cortar um pepino com uma faca ou colocar talheres sobre a mesa.

2 - Como podemos evitar que TV domine nossa vida familiar?
  • Mantenha a TV desligada durante as refeições da família.
    • Comer em frente à TV começa dá início a um mau hábito e aumenta a dependência das crianças em relação à TV.
  • Faça da conversa uma prioridade em sua casa
    • Ao interagir mais com seus filhos, você os está ajudando a desenvolver suas habilidades de conversação.
    • Isso vai melhorar a sua relação com seus filhos, além de manter abertos os canais de comunicação entre vocês.
  • Leia para seus filhos.
    • Comece a ler para seus filhos por um tempo que seja adequado à idade deles. Crianças pequenas conseguem manter em média 20 minutos de concentração em uma atividade, por exemplo. Isso aumenta com a idade e com o interesse despertado nas crianças pela leitura, que deve ser dinâmica, animada, envolvente.
    • Incentive as crianças mais velhas a ler por conta própria, mas não pare de ler em voz alta para elas também.
    • Mostre a seus filhos que você gosta de ler. Deixe-os ver que estão lendo em vez de vendo TV para relaxar. 
  • Não use a televisão como recompensa ou punição.
    • Isso dá à TV muito valor, mais do que deveria, e ao mesmo tempo diminui o valor do que quer se fazer no lugar de ver TV. Exemplo: “você só pode ver seu programa se ler um capítulo do livro primeiro”. Isso pode indicar para a criança que ver a TV é um prêmio e que ler livro é o preço a se pagar. Ou seja, muito valor para a TV e pouco para ler. Pode ser um tiro no pé.

3 - Incentivar atividades recreativas
  • Incentive seus filhos a participar de esportes, jogos, passatempos e música. Por exemplo, você pode querer desligar a TV e fazer uma caminhada ou fazer um projeto com o seu filho.
  • Defina certas noites para serem usadas em atividades familiares especiais, como um passeio de bicicleta em família ou uma noite de jogo.

4 - Não use a TV como uma distração ou babá para crianças pré-escolares.
  • Você pode fazer seus trabalhos em casa sem ligar a TV para ocupar os seus filhos. Procure envolver o seu filho no que você está fazendo. Por exemplo, se você precisa pagar as contas, dê a seu filho papéis, envelopes, marcadores e adesivos, e deixe-os "pagar as contas", também! Se você está dobrando roupa, deixe seu filho arrumar as meias em pares. Se as crianças mais velhas estão fazendo lição de casa, dê aos seus filhos menores alguma "lição de casa" para fazer ao lado deles.
  • Alternativas para TV incluem quebra-cabeças, massinha, jogos de tabuleiro, giz de cera, revistas, cortar e colar, vestir-se, ler e fazer fortes de cadeiras e cobertores ou caixas de papelão grandes. Você também pode criar o dia do amiguinho, junto com outros pais da vizinhança, para que as crianças frequentem a casa uma das outras para brincar.

5 - Mantenha os aparelhos de TV fora do quarto de seus filhos
  • Um terço das crianças com idade entre 2 e 7 anos e dois terços das crianças com idade maior do que oito anos têm televisão em seus quartos.
  • Colocar uma TV no quarto do seu filho dificulta seu monitoramento do tempo gasto vendo TV e os tipos de programas que eles assistem.
  • Para as crianças, pesquisas mostram que ter uma TV no ​​quarto está ligado a problemas na escola e problemas de sono.
  • Se o seu filho se queixa de que todos os seus amigos têm seus próprios aparelhos de TV em seus quartos, lembrá-los de que você vai fazer o que você sente ser melhor para eles, porque você se importa com eles.

6 - Mantendo-se envolvido com que os filhos estão assistindo
  • Assista aos programas junto com seus filhos e depois converse sobre o que assistiram.
  • Discuta as consequências da violência (se você permite às crianças mais velhas assistirem a programas com violência) e sobre os outros caminhos que podem ser usados para se resolver conflitos.
  • Fale sobre estereótipos e preconceitos mostrados nos programas.
  • Discuta os comerciais com as crianças. Você pode ajudar as crianças a reconhecerem as armadilhas vinculadas neles, além de avaliarem se as mensagens são realísticas ou não.
  • Discuta as diferenças entre realidade e faz de conta. As crianças interpretam o que vêm de maneira diferente dos adultos. A fantasia nelas é muito mais forte. Elas podem não conseguir distinguir fato de ficção. Explique diferenças entre notícias e entretenimento, entre realidade e faz de conta.
  • Compartilhe suas próprias crenças e valores.
  • Encontre um modo de falar sobre as notícias com as crianças. O noticiário e as imagens mostradas podem ser violentas, perturbadoras e sensacionalistas. Ajude a criança a colocar a notícia no contexto.

7 - Como posso guiar o que meus filhos assistem na TV? 
  • Descubra o quanto a TV é presente na vida de seus filhos.
  • Use a planilha no final desta seção para mapear o tempo que seus filhos gastam em frente à TV, ao vídeo game e ao computador. Você pode se surpreender!
  • Fique atento ao que os programas estão mostrando.
  • Encoraje programas educacionais, como Vila Sésamo, Sid o Cientista, programas que trabalhem com desenvolvimento afetivo, social e cognitivo das crianças. Evite os que contenham estereótipos, punição, recompensas. Ao invés disso, veja concertos, eventos esportivos, natureza, documentários, etc.
  • Evite programas violentos, especialmente os desenhos. Tenha em mente que programas classificados como infantis tendem a ser mais violentos que os de adulto.
  • Limite o horário para se assistir TV. As crianças precisam ir para cama em um horário razoável, a fim de evitar distúrbios do sono, o que ocorre com frequência em crianças que assistem muito a TV, e até tarde, antes de dormir.

8 - Como posso ser um bom exemplo para meus filhos?
  • Não subestime o poder da modelagem, ou seja, de ser modelo, exemplo para suas crianças. Não deixa que a TV interfira no seu estilo de vida além do saudável. Policie o seu tempo gasto com TV e o conteúdo assistido.
  • Não espere que seus filhos tenham auto-disciplina ao verem TV se você mesmo não tem.
  • Não assista programas para adultos na presença dos seus filhos.
  • Gaste seu tempo livre lendo, exercitando-se, brincando ou conversando com seu filho.

9 - Planejando o tempo de TV
  • Faça um planejamento semanal e ensine seu filho a desligar a TV no fim dos programas. Ou seja, não fique zapeando a TV em busca do que elas devem assistir. Planeje. Use a programação disponibilizada pelos canais para se orientar.
  • Pelo menos uma vez por semana, sente-se com seus filhos e escolham um programa para ser assistido por toda a família junta. Assista só a estes programas. Quando terminarem, desligue a TV e discuta com eles sobre o que assistiram. Se a TV permanecer ligada, provavelmente a criança ficará interessada no próximo programa e daí vai ficar mais difícil parar de assistir.



3 comentários:

  1. Podemos confiar nos canais infantis? Ex. Discovery Kids, Disney Chanel..

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    1. Caro anônimo, ao analisar a programação de um canal infantil, dois fatores, em geral, devem ser observados:

      1- Os programas são educativos? Se forem, estão adequados para a faixa etária do meu filho?

      2- Há propaganda sendo veiculada? Quanto? De que tipo?


      Para a primeira questão, o texto desta página dá várias pistas e alguns esclarecimentos. Por exemplo, partindo do ponto de vista da violência na TV, Bem 10 é adequado para uma criança de 5 anos? Aliás, é adequado para que faixa etária? Não tem jeito: é preciso assistir ao programa e, à luz do que foi dito aqui, tirar suas conclusões e tomar suas decisões.

      Para a segunda questão, estou preparando um texto sobre os efeitos da propaganda em crianças. Em linhas gerais, alguns especialistas são da opinião que elas podem ser mais maléficas para as crianças do que a violência na TV. Por quê? Pois induz a alimentação inadequada, ao vício, aos estereótipos sociais, entre outras possíveis consequências. Além disso, se a criança está assistindo a um programa educacional, interessante, a propaganda corta a sequência, desvia a atenção da criança, o que pode sobrecarregá-la.

      Resumindo, assista aos programas, faça uma comparação com o que foi exposto nesta página, veja a quantidade de propagandas e o teor das mesmas. Eu prefiro canais sem propaganda, ou com muito pouco. Aliás, fica uma reclamação de usuário: eu pago TV por assinatura e mesmo assim sou obrigado a assistir uma infinidade de propagandas em alguns canais infantis? Eu to pagando justamente para não ter isso! Por conta disso, por exemplo, meu filho deixou de assistir Discovery Kids e passou a ver a Cultura.

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